Pensar na Bauru que desejamos para os próximos anos exige olhar para trás. Afinal, é impossível planejar o futuro sem antes refletir sobre os caminhos que moldaram a nossa história política, porque o idealismo da Assembleia Constituinte de 1987-1988 contrastava profundamente com o pragmatismo da manutenção do poder que domina o Congresso Nacional hoje. Os deputados da época como Ulysses Guimarães, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e João Herrmann Neto viam a política como uma missão civilizatória pós-ditadura, com o “Sonho” de reconstruir a democracia, garantir direitos sociais universais, erradicar a miséria e sepultar o autoritarismo, sonho este que se alcançou com a promulgação da “Constituição Cidadã” de 1988, que institucionalizou o SUS, os direitos trabalhistas, a liberdade de expressão, direitos humanos, a cidadania e a dignidade social no centro de suas prioridades.
As divergências eram profundas, guardadas as proporções entre o Centrão e a esquerda da época, mas as discussões giravam em torno de projetos de país, e não de interesses puramente individuais. As citações dos Parlamentares Constituintes de 1988, são ferramentas poderosas para servirem como um “choque de realidade” no caro leitor, demonstrando o abismo retórico, moral e intelectual entre o projeto de país de 1988 e o pragmatismo fisiológico atual. Para mostrar que, mesmo com divergências profundas, os políticos da época colocavam o respeito institucional e o dever cívico acima de interesses pessoais.
O maior símbolo da Constituinte foi Ulysses Guimarães. Seus discursos eram repletos de convicção sobre a grandeza do papel que desempenhavam. Frases como “A Nação nos mandou executar um serviço. Nós o fizemos com amor, aplicação e sem medo. A Constituição certamente não é perfeita. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais.” ou “A Nação quer mudar, a Nação deve mudar, a Nação vai mudar.” firmaram-se na história.
O contraste entre as eras é brutal. Enquanto os constituintes de 1988 deixaram cravado na história o compromisso de que a Carta Magna seria “luz, ainda que de lamparina, na noite dos desgraçados” (Mario Covas), a política atual parece ter apagado essa chama em troca dos holofotes das redes sociais e do fisiologismo. O debate programático deu lugar a uma guerra de sobrevivência e conveniência. Onde antes se discutiam projetos de nação, hoje se negociam fatias de poder e frentes parlamentares sem espinha dorsal ideológica, como por exemplo a do Deputado Federal João Herrmann Neto, que foi um dos deputados constituintes mais ativos no campo progressista e de esquerda, atuando como uma peça-chave na articulação política da Assembleia Constituinte de 1987-1988, ele encaixa-se perfeitamente no perfil de político idealista que personifica a transição da resistência à ditadura para a construção de um projeto de país. Ele foi Primeiro-Vice-Lider do PMDB, integrou a comissão mais importante da Constituinte, responsável por reunir todas as propostas, emendas e relatórios para dar o texto final à Constituição de 1988. Foi designado representante oficial da Câmara dos Deputados no Encontro de Cúpula entre os Presidentes dos Países do MERCOSUL e representantes dos Países da União Europeia (CIMEIRA), realizado no Rio de Janeiro em 1999. Atuou oficialmente no acompanhamento do plebiscito de independência do Timor-Leste (1999) e no processo de pacificação de Kosovo e eleições no Peru (2000). Integrou em 1986 a comissão parlamentar voltada ao reatamento das relações diplomáticas plenas do Brasil com a antiga União Soviética (URSS). Representou o Brasil no Parlamento Latino-Americano. A grandeza daquela época se materializava em figuras como João Herrmann Neto.
Façamos um chamado à reflexão sobre a necessidade de resgatar o espírito de compromisso público de 1988 para que a política volte a ser um instrumento de transformação social, e não de benefício próprio, porém, como fazer a transição do “bloco do sonho” para o “bloco da realidade atual”?
A política brasileira atual é marcada por um cenário de alta fragmentação partidária e hiper representação, onde os políticos exercem grande poder de negociação de emendas e disputam espaço com o ativismo do Poder Judiciário; atualmente, os políticos enfrentam uma forte “judicialização” da política, diante de crises de corrupção e impasses legislativos, o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a atuar como árbitro e moderador, gerando tensões constantes com os políticos atuais, que frequentemente acusam o Judiciário de invadir suas competências constitucionais.
Abandonemos a hipocrisia. A classe política de uma nação é o reflexo direto da cultura que a sustenta, porque todos sabemos que elegemos os nossos representantes, e que eles são exatamente o espelho da mesma sociedade que os elege. A relação entre a sociedade atual e o desejo de políticos melhores é de espelhamento e corresponsabilidade, pois o corpo político de uma nação é o reflexo direto de sua própria cultura, os políticos não surgem do nada; eles saem de dentro da própria sociedade e carregam seus vícios e virtudes. A população frequentemente culpa “os políticos” pelos problemas, esquecendo que eles foram escolhidos pelo voto majoritário. Em última análise, sociedades que toleram a ‘pequena corrupção’ em seu cotidiano estão fadadas a eleger líderes que institucionalizam o desvio em larga escala.
Ou seja, queremos políticos melhores? Primeiro necessitamos que haja mudanças de comportamentos, para que no futuro isso repercuta em melhores representações.
A busca por representantes públicos qualificados pressupõe, antes de tudo, uma transformação estrutural em nossa sociedade, que é um processo contínuo que demanda dedicação e esforço. No cenário bauruense, é fundamental que as lideranças compreendam a necessidade de união em prol de um propósito maior. Urge construir um projeto que recupere o protagonismo e o dinamismo da política local, atualmente estagnada e adormecida. Essa reconstrução exige o restabelecimento do diálogo com a sociedade política e civil organizadas, que é a base para o desenvolvimento que Bauru tanto merece. Ao fortalecermos nossa base interna e reverenciarmos nossa história, estaremos prontos para alçar voos mais altos, expandindo nossa representatividade nos parlamentos estadual e federal.
Fernando D’Abronzo Gil
Proprietário da FAMRE5, Empresário no Agronegócio e atua como Árbitro nas câmaras CMARP e CCMA-MG-BRASIL e como Mediador no conciliaJUD (CNJ)
Fotos do registro da câmara: Deputados Ulysses Guimarães e João Herrmann Netro


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