A Teoria dos Jogos é um ramo da matemática aplicada que estuda interações estratégicas entre agentes racionais. A ideia central é analisar situações onde o resultado das suas escolhas depende diretamente das escolhas feitas pelos outros participantes. Que me perdoem os jogadores de Aplicativos de Apostas (as “Bets”), porque não revelarei como se deve jogar para ganhar, mas sim, falaremos sobre o brilhante matemático húngaro John von Neumann e pelo economista austríaco Oskar Morgenstern. Eles publicaram juntos o livro definitivo que fundou a disciplina, chamado Theory of Games and Economic Behavior (Teoria dos Jogos e Comportamento Econômico), a obra foi publicada pela editora Princeton University Press no ano de 1944. Porém, mais tarde, na década de 1950 o matemático John Nash, cuja vida inspirou o filme “Uma Mente Brilhante”, expandiu drasticamente a teoria ao criar o famoso “Equilíbrio de Nash”, aplicando-a a jogos onde todos podem ganhar ou perder simultaneamente, e não apenas a disputas rígidas. A teoria assume que a vida em sociedade funciona como um grande “jogo” de tabuleiro ou cartas. Ela demonstra que, em um cenário onde pessoas, empresas ou países interagem, tomar a melhor decisão isolada não garante o melhor resultado. É preciso antecipar o que o “adversário” vai fazer e calcular sua jogada com base nisso.

John von Neumann era fascinado por jogos como o pôquer e o xadrez. Em 1928, ele publicou um artigo chamado Zur Theorie der Gesellschaftsspiele “Sobre a Teoria dos Jogos de Salão”. Ele provou matematicamente o “Teorema Minimax”, mostrando como minimizar a perda máxima possível em jogos de dois jogadores onde um ganha exatamente o que o outro perde, conhecida como, soma zero. Durante a Segunda Guerra Mundial, Von Neumann uniu forças com Oskar Morgenstern na Universidade de Princeton. Morgenstern percebeu que a matemática que Von Neumann usava para decifrar blefes no pôquer era a ferramenta perfeita para explicar a competição de mercado na economia real, onde empresas agem como jogadores disputando lucros. O desenvolvimento da teoria ganhou tração máxima com financiamento militar logo após a publicação do livro. O governo dos EUA utilizou esses modelos matemáticos para planejar estratégias de dissuasão nuclear contra a União Soviética na corporação de pesquisa militar RAND Corporation.

Hoje, a Teoria dos Jogos saiu do campo das cartas e é indispensável para definir táticas em biologia evolutiva, grandes fusões empresariais e diplomacia internacional, nas Mediações em resoluções de conflitos, ou seja, a Teoria dos Jogos está presente em quase todas as decisões do nosso dia a dia, muitas vezes de forma intuitiva. Quando passamos a entender a lógica por trás dessas interações, conseguimos prever comportamentos e alcançar melhores resultados.

Na mediação, entende-se que o conflito é natural, é bom, o que não pode é ter confronto. Nas disputas jurídicas tradicionais, o jogo costuma ser de Soma Zero (o que um ganha, o outro perde). Nas câmaras de mediação, o objetivo do mediador é mudar as regras para um jogo de Soma Não-Zero (onde ambos podem ganhar).  Em uma briga judicial, o autor e o réu costumam adotar uma postura agressiva de “processar ao máximo” ou “negar tudo”. Mas, se ambos cooperassem, economizariam tempo e dinheiro. Porém,  por medo de serem passados para trás, ambos atacam, gerando o pior resultado, anos de processo e gastos altíssimos com advogados. O mediador, que naturalmente já conhece por exemplo o chamado “Sistema Multiportas” e o “Dilema do Prisioneiro”, entende como evitar maiores prejuízos, trabalha como um “agente da confiança”, permitindo que as partes cooperem sem medo de vulnerabilidade.

No tribunal público, as partes escondem suas reais intenções e fraquezas. Na mediação privada, sessões individuais protegidas por sigilo permitem que o mediador descubra o que o jogador realmente quer, porque às vezes não é o dinheiro, e sim, é um pedido de desculpas ou o fim de um incômodo. Ao alinhar as informações, o mediador desenha um acordo onde todos saem ganhando restabelecendo a comunicação que haviam perdido. Nash revolucionou o campo ao provar que jogos com interesses mistos, onde todos podem ganhar ou perder juntos, também possuem um ponto de equilíbrio. Nele, cada jogador toma a melhor decisão possível para si, considerando o que o outro jogador está fazendo.

Nas câmaras de mediação de conflitos, o papel do mediador é justamente destruir um Equilíbrio de Nash ruim e guiar as partes para uma cooperação, buscando assim um jogo de Soma Não-Zero, onde ambos podem ganhar.

Saindo da mediação e seguindo para o nosso Cotidiano, podemos analisar como usar esses cálculos de interações rápidas nos modelos clássicos de exemplos, como: na rua, no trânsito ou no trabalho. No Trânsito, sinalizar ou não a mudança de faixa?  Se você dá a seta e as pessoas aceleram para fechar o espaço, elas estão jogando de forma não-cooperativa. Você antecipa isso guardando a intenção até o momento exato, calculando a reação do outro motorista. No Trabalho, Projetos em Grupo. Existe o conceito do Free Rider (o “carona”). Se um projeto é em grupo e todos ganham a mesma nota, a tendência racional de um indivíduo egoísta é não fazer nada e deixar os outros trabalharem. Para evitar isso, a Teoria dos Jogos sugere mudar as regras: criar subetapas com entregas individuais claras para que o custo de não cooperar seja a exposição pública do jogador preguiçoso.

Para nos melhorarmos usando a Teoria dos Jogos e o Equilíbrio de Nash, precisamos parar de agir por impulso e começar a pensar estrategicamente. Melhorar-se, nesse contexto, significa tomar decisões que maximizem nossos resultados de longo prazo, melhorem nossos relacionamentos e evitem desgastes desnecessários. De qual forma? Mude o foco para Jogos de Soma Não-Zero. Em uma briga com o parceiro ou sócio, em vez de tentar “ganhar a discussão”, pergunte-se: “Qual decisão faz com que nós dois ganhemos algo?”. Procure criar valor em vez de apenas disputar o bolo. Seja gentil, sempre comece cooperando e confiando.

A Teoria dos Jogos nos ensina que o sucesso não depende apenas das nossas escolhas, mas de como nossas escolhas interagem com as dos outros.

Pensando no que esperamos para as nossas vidas ou dos nossos filhos e netos; isso é o que eu desejo para uma sociedade melhor, com medidas simples, onde o cidadão se coloca numa posição de querer se melhorar, corrigir seus defeitos, ouvir o próximo, aceitar as diferenças para ser um verdadeiro homem do bem ou um cristão em pratica exercendo sua cidadania.


Dedico este artigo ao Professor Fabio Gomes Paulino, do IMA – Instituto e Câmera de Mediação Aplicada, do curso de Formação em Mediação e Conciliação Judicial e Extra Judicial – T29T

Fernando D’Abronzo Gil 

Proprietário da FAMRE5, Empresário no Agronegócio e atua como Árbitro nas câmaras CMARP e CCMA-MG-BRASIL e como Mediador no conciliaJUD (CNJ)